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  • Foto do escritorFernanda Aoki

A ESCRITA E O VÔMITO


Sempre pensei que escrever é como vomitar...

De repente as idéias vêm, sem controle, em movimento brusco e involuntário e você precisa abrir a boca e inclinar-se para que o vômito saia... Precisa se deixar fluir e jorrar a comunicação, aceitar pegar a caneta e inclinar-se às idéias que chegam e chegam em enxurrada, como o vômito, o qual começa e você não sabe o que vai sair...

As idéias - como dizia Rubens Alves - têm vida própria, elas chamam umas as outras e você se deixa inclinar, reverenciando-as para que ganhem contorno e permite ser lavado ou sujado por elas, tornando o seu instrumento, veículo que tal como as palavras fica sem existência própria...

E nesse ritual conversivo, ambos, palavra-escritor tornam-se cúmplices, a palavra precisa habitar em uma mente-canal que aceite alojá-la...

Mas repito que, tal como o vômito não se é uma escolha muito ativa, não se escolhe vomitar, o vômito vem e apenas passa por você para poder chegar ao mundo.

Acredito que escritores são aqueles que não possuem boa digestão... A comida-mundo é ingerida e fica gestando na mente como algo bruto, misterioso e indigerível, eis então que surge o vômito-escrita, é

preciso fazer algo com aquele alimento, catalisação externa de um incômodo que não coube dentro...

Por isso escrevemos, para não adoecer, para que o tóxico saia em vômito escrita... Clarice dizia que escrevia por necessidade e Adélia alegava a sua involuntariedade nesse processo.

Esses grandes vomitantes, que digerem em público a comida que ingeriram, permitindo que seus leitores conheçam cada fragmento do alimento e cada partezinha de seu processo de catalisação e transformação de sangue e carne, tornando-se o que somos. Eles que escancaram do que e como fomos formados, permitem que percebamos que os escreventes-escreventes, porque parecem mais ditados por uma força maior – esses vomitantes não possuem só uma dificuldade de digestão, mas também são comilões em potencial, permitem-se ingerir e ser penetrados por infinitos alimentos que são vagarosamente saboreados e que para a maioria da população não se come ou só se engole... Eles então possuem um trato digestivo mental peculiar – comem, deixam-se invadir pelos acontecimentos e pela vida e transformam tudo isso em corpo e sangue, em um estômago externo onde a caneta e o lápis ( ou o teclado do computador ) dão o contorno e lugar à transformação do vômito em alimentos que constrói e sustenta o eu, e o outro que puder saborear e inclinar-se humildemente à culinária exótica da essência-homem.

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Talita Varoli
Talita Varoli
30 de jan. de 2019

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