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  • Foto do escritorFernanda Aoki

Entre a garapa de beber com os olhos e com a boca



Dizem que escrever é um ato narcísico, não sei se concordo... Narcísico parece que tem a ver com xingamento, exclusão, ou até não admissão do outro. Se for desse Narciso, tenho que discordar, pois se não se considerasse o outro-leitor, não se escreveria, se guardaria tudo dentro sem externalizações.

A escrita existe justamente pela extrema necessidade do outro. Como diz Clarice “o outro é o atalho para chegar em mim”; A pedra no sapato que impulsiona a escrita é justamente se reconhecer pelo outro, é por se comunicar que se descobre o que se tem dentro; assim como descobrimos quem somos pelos olhos-espelhos da mãe. O escritor é aquele que continua buscando incessantemente esse olhar. E o faz pelos intermediários: letra e papel. E aí pode ser que se aproxime desse outro Narciso que busca intensamente quem se é, utilizando-se do espelho para tal jornada... Mas esse Narciso não morre afogado e ensimesmado, pois senão não conseguiria mais escrever... Ele, narciso-escritor e não escritor narcísico[1], é atravessado por tantos espelhamentos das cores, das coisas, das pessoas, das experiências. A vida o atravessa de sopetão, mas ele quando pode recebê-la, ainda que de má-vontade, a devolve ao outro devagarinho, timidamente, ao escrever,-bate a porta, e quem puder deixar entrar, ser visitado pela vida pode entregá-la de volta de um outro jeito ainda, de modo que elas, a vida e a escrita, vão se transformando a cada “olhos-casa” que entra.

E é por atravessar os intermediários que acredito ter certa generosidade na escrita, compartilhar uma vivência, um olhar, um mundo deixando desconhecidos entrarem em labirintos tão íntimos... Como me fizeram outra, Clarice, Cecília, Rubem Alves, Manoel de Barros, Drummond, Adélia, Ana por partilharem das coisas de suas almas,pude despertar meu olhar para tantos en-cantos.

Acontece que para escrever precisamos de certos distanciamentos das coisas, Barthes dizia que há uma ordem de conhecimentos que são dos olhos, precisamos nos afastar para ver; assim também é na escrita, símbolo, que presentifica uma ausência; mas esta ausência é uma ausência transformada, feito a de Drummond “ausência é um estar em mim”, é a experiência saboreada que agora faz parte do escritor e já é escritor que é doada no papel. O mundo é tão intenso para o artista que possivelmente ele cante, dance, pinte, escreva para colocar um certo distanciamento, se aproxima e se afasta, e nessa oscilação-dançante pode dar contorno ao experimentado; Assim talvez Narciso tivesse uma experiência tão intensa de si que só pudesse se olhar pelo reflexo... A escrita é um movimento de reflexo do vivido.

Mas por gostar demais dos sabores é que às vezes deixo de escrever, sou criatura feita da ordem da presença, do encontro...Entre a garapa do carrinho da esquina que vem geladinha sentada na sarjeta que com açúcar e afeto me refresca, e contar um pensamento meu, fico com a garapa... Entre saborear o pôr do sol do alto da igrejinha silenciosa, ouvindo apenas os sussurros de despedida dos pássaros e contar as cores do crepúsculo do meu dia, fico com o encontro na igrejinha...Entre um abraço apertado que dá até nó e uma carta, fico com o abraço...Sou criatura gulosa e por vezes egoísta, entre viver e escrever o vivido...Desculpem-me a sinceridade mas o viver é irresistível!

Sei que quando escrevo estou viva, faço, me refaço e dou ainda mais sabores para a garapa, mas o encontro da garapa com minha boca é indescritível, do abraço com meu braço...

E é pelo experimentado no dia que se pode sonhar a noite, não se digere algo que não foi comido, mastigado, encarnado. É pela presença que a ausência fica assimilada, ganhando as formas daquilo que se saboreou.

E vou entendendo assim que sou então viva e vivida feito lua e sol. Vivo de dia de cores intensas, mudo as cores das coisas conforme estou por dentro, experimento, acalento, vibro; mas quando há noites em mim, e até eu sou ausente, tento assimilar-me, estar em mim, e então sou feito lua, reflito as cores do sol, fico quase translúcida, viro intermediária, e escrevo silenciosa para aqueles que no escuro buscam a cor do dia que passou, só para lembrar como se é. E ao amanhecer ganharem força, vida e saírem do papel, para escrever uma vida que é tão grande que não cabe nas letras, mas se marca nas coisas, nas pessoas, nos olhos, no coração que bate sem ponto e vírgula, mas acelerado com vontade de VIVER...

Me perdoem os escritores, mas viver é fundamental!

[1]Falo aqui dos escritores poetas que escrevem da e para a vida, CHEIOS de vida

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