top of page
  • Foto do escritorFernanda Aoki

ENTRE O PARAÍSO E O INFERNO HÁ UM MUNDO

Texto por Fernanda Aoki.

Em um encontro de pensamentos canções com um paciente surgiu-me essa idéia. Quer dizer, ela já existia, só tomou forma, ou como diria Michelangelo, “Davi já estava lá, eu só tirei o que não era Davi”!!! O conceito já existia, eu aparei as arestas e pude cantar a canção com novas letras.

Esse paciente queixava-se muito de as coisas não serem como gostaria que fosse. Estava crescendo e encontrando cada vez mais uma realidade alheia ao seu desejo mágico de quando era criança e sentia então pouca vontade de viver e fazer parte desse “mundo adulto”.

Então o pai não era mais aquele herói, a faculdade tão renomada não era o supra-sumo do conhecimento, a menina não era tão perfeita e acabava até gostando mais dele do que dela.

Assim, parecia que nada prestava, que o ressoar da meia noite da Cinderela tocara alto demais e as transformações cruas da realidade não tivessem qualquer encanto e canto/espaço dentro dele.

Eu brincava que era como se ele descobrisse que Papai Noel não existisse e aí não quisesse nem mais o presente de Natal. Se não era do jeito que ele imaginava ser não podia nem usufruir do que era real, daquilo que continuava encantado, justamente por ser um encanto real.

Eis então que surge a idéia que este menino, ou na verdade, uma parte desse menino que mora em todos nós se rebelava contra este estado do que Milton chamava de “paraíso perdido”...

Lamentava triste a ausência de um mundo que lhe oferecesse todas as coisas, que lhe saciasse conforme seu desejo... Da presença de uma força onipotente que tudo supre, tudo protege e tudo se faz ao pronunciar uma palavra.

Esse paraíso fora perdido, com a seguinte condenação: “Viverás na Terra, onde se sustentará com o suor do teu trabalho”...

Ora, a condenação não foi “padecerás no fogo do inferno”, assim como esse menino sentia, a desesperança de um “padecente do inferno”.

Quantas vezes fazemos esse caminho direto, “sem digestões” da maçã para as fezes, sem nenhum aproveitamento nutricional no trato digestivo. Quando perdemos algo “do modo como queríamos, sonhávamos e exigíamos sua realização, escorregamos rapidamente nesse sentimento de inferno, de ausência de vazio, porque nada podemos aproveitar ou salvar de nossa condenação do “de repente virou pó”...

Não há homens que prestem, melhor ficar sozinha... Se não é o casamento dos sonhos, melhor não casar... se não passei no vestibular, sou um burro, se meu pai não é herói, não serve como pai, se eu me dou a conhecer, assim como no Éden, e me vejo imperfeito, devo queimar no inferno, jogar no fogo, fazer de novo, porque esse eu veio com defeito “...

E o defeito parece intolerável.

Alto lá! Parece que não foi essa a condenação do mito... Como diria uma pequena e sábia menina que conheci “parece haver um fio de vida”, de esperança...

Não é para o inferno que os “expulsos do paraíso” vão... Eles vão para o mundo, sustentar-se com o suor do trabalho...

Epa, não tem tudo pronto e magicamente perfeito e feito, mas tem

um segredo aí, “os exilados” vão fundar uma terra que é sua, não só por determinações alheias, mas porque é construída por suas mãos...

É a oportunidade de irem possuindo a si e a sua terra... Com trabalho e suor sim, mas deixando Sua marca, Suas digitais em Suas obras...

Sim, os pais ainda não serão heróis, mas poderão se relacionar com ele com o esforço que se tem para ser quem é... com aquilo que me ajudou a crescer para além das circunstâncias.

A mulher/homem continua não sendo perfeita (o), não adivinhando seus desejos e pisando em seus calos numa dança... Mas pode expressar o que se gosta, tolerar o que não se gosta, reajustar os passos, ensaiar, prestar atenção no outro e continuar dançando.

Não passou na prova ou na entrevista para o trabalho por ser magicamente eu, fruto da inteligência e digno de admiração, mas pode repensar as escolhas, aprender com as derrotas, suar nos treinos para chegar frente a frente com a vitória e sentir que foi merecida.

Acho que esse é o maior presente desse intervalo céu-inferno, sentir-se pertencente, “dono e proprietário”, não visita, inquilino prestes a ser despejado cada vez que a varinha mágica não obedecer aos desejos...

É nesse intervalo que entra a possibilidade do trabalho e do ser trabalhado... A parte da digestão da comida, onde se retém o que nutre e faz crescer e joga-se fora o que não presta.

Eu sei, esse lugar nos torna humanos, e a primeira característica que nos configura humanos é a dor, como diria o anjo do filme “Cidade dos Anjos”, quando soube que ganhou a humanidade, ao experimentar a dor, as contrações de um nascimento... Nascer dói...

Mas, como diz o ditado: “ o que arde cura, o que aperta, segura”. A dor nos assegura que temos também o dom do cuidado, as oficinas de conserto, os curativos...

Temos a dor que nos lembra da dor da perda do paraíso, e o cuidado para nos recordar de que o paraíso mora em nós e dependendo de onde o colocamos seremos sempre errantes, ou sempre “filhos do Criador”, criando novos jeitos de ser e estar nesse mundo, recriando a si e o seu paraíso

116 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Commenti


bottom of page